Fortuna crítica
Asinus in scamno se vult similare magistro (*) ou:
Quando a galinha engole pedras
SILVÉRIO DUQUE
Leitor, uma tragédia trouxe-me diante de você… Seria um anúncio de uma catástrofe natural de proporções globais? A formal declaração de guerra ao resto do Mundo pelos Estados Unidos da América? A morte de nosso presidente, o superstar de bursite?… Não, leitor, existem coisas que destroem com muita eficiência e num contingente bem maior que muitas armas de destruição em massa que conhecemos.
A tragédia em questão, meu caro leitor, é um “artigo”, publicado no dia 6 de dezembro de 2002, no jornal Folha do Estado da Bahia, sob o título de “Prazer e conhecimento”, e assinado por um ambíguo, ridículo e covarde pseudônimo de “Meddeia”. Um “artigo” que, como qualquer mero artigo, poderia ser mais um dos tantos que passam desapercebidos do grande público — como da parte mais preparada — e sem a necessidade de tão desesperados alardes de minha parte, não fosse o fato desta “indivídua” conseguir, de uma só tacada, destruir duas condições básicas do Homem enquanto ser pensante; justamente aquelas que diferenciam a humanidade do resto de todo o reino animal: a Linguagem e a Racionalidade.
A “articulista”, em nome de uma interpretação tola, transladada para um texto, ao mesmo tempo, vazio e abjeto, como o próprio “ser” que o escreveu, e dotada de uma síndrome de Narciso digna das mentes mais infames, pensou estar respondendo, com uma crítica profunda e bem articulada, ao texto de meu amigo Jessé de Almeida Primo, que, por sua vez, respondia a um outro de também amigo meu, o crítico Darlan Zurc (responsável por uma análise aprofundada e muito bem elaborada a respeito de um texto do meu mestre, e professor emérito da Universidade Estadual de Feira de Santana, José Jerônimo de Morais); mas tudo que “Meddeia” conseguiu foi nos mostrar, por meio de um truque vil e patético, ser possível uma galinha morta cacarejar.
“Meddeia”, por meio de algo que “ela” pensa ser um “artigo”, acusa Jessé de ser um mau-caráter a se utilizar de “artimanhas textuais” para desorientar o leitor e defender o texto do professor Jerônimo, o qual “ela” considera medíocre — lembro-lhe, leitor, que Jessé considerou o texto “pífio”, que, etimologicamente (e “Meddeia” deveria saber muito bem disso), é muito diferente de “medíocre”. As coisas não param por aí: “Meddeia” considera como primários os argumentos de Jessé sobre a releitura constante do livro Parlendas, do Prof. José Jerônimo, como forma de provar o quão errado o autor do artigo “O mestre está nu”, Darlan Zurc, encontra-se a respeito da credibilidade intelectual de nosso professor emérito. Para fins de acusações, “Meddeia”, que é também doutorada nas artes de Hipócrates, diagnostica o escritor do artigo “Miserere nobis” (publicado também na Folha do Estado da Bahia, 21 de novembro) como portador de uma profunda e incurável hipocondria. Pena que “Meddeia” seja tão ruim em Psicologia, quanto médica e escritora, pois é incapaz de perceber que é portadora de um caso grave a ser estudado pela Psiquiatria e, também, foi capaz de, após rebaixar Jessé à qualidade de um Mister “M” das letras, um jongleur jornalístico da pior classe, apontar, numa gentileza jumental, as qualidades de escritor e de grande erudição de meu amigo.
Mas “Meddeia” esqueceu-se de algumas coisas que aqui devem ser lembradas, para termos uma idéia do quão falacioso e muito mal escrito é o texto de nossa personagem greco-nordestina:
1) Jessé não se utilizou de artimanha ou prestidigitação baratas, mas de sinceridade intelectual, ou seja, ele “deu nome aos bois”, mostrando os defeitos e os grandes acertos do texto de Darlan. Sinceridade intelectual é uma raridade num país que esqueceu os significados de sinceridade e intelectualidade; e quando a sinceridade intelectual acontece é imediatamente taxada de “virada de casaca” pela maioria de nossas “mentes brilhantes”, as quais são naturalmente incapazes de tal ato;
2) Tanto o artigo de Jessé quanto o de Darlan concentram-se, necessariamente, na análise da figura pública do Prof. Jerônimo — como o próprio Jessé deixou claro: “o artigo do professor é apenas um pretexto” —, que é utilizada de forma descabida por muitos, como, por exemplo, os “revolucionelhos” de plantão, que compõem nos DAs e DCEs da vida a New Age do marxismo sertanejo. Uma gente porca, e de uma estirpe tão desqualificada, que Dostoievsky só conseguiu achar uma única razão pela qual se organizava e lutava há tanto tempo e em tantos lugares e contra tantas coisas (incluindo seus próprios militantes): o Tédio;
3) Quando Jessé se refere ao livro Parlendas, ele mostra, com elaborados argumentos, que Darlan exagerara na dose e tenha, assim, confundido um texto em particular, com os “bem resolvidos” textos em prosa mais os poemas do Prof. José Jerônimo de Morais. Para tentar resolver o problema, Jessé usa a si próprio como exemplo e convida o graduado em História, o Zurc, a novamente ler e analisar, de maneira mais precisa e prazerosa, a obra leve e insuspeita do professor emérito. Ora, só alguém dotado de infinita e infalível inteligência, tipo “Meddeia”, pode ser capaz de tirar do campo do bom senso o estudo pormenorizado de uma obra literária, por mais compreendida que esta, a alguém, se lhe pareça.
Como se não fosse suficiente tanta demência para tão pequenino “artigo”, aliás, uma das coisas mais mal escritas na qual, ultimamente, pus os olhos, a intelectualisadíssima “Meddeia” ainda se prestou a ares de fenomenologista, acreditando que poesia e placa de trânsito estão para uma igualdade de análises da mesma forma que “ela” e Edmund Husserl estão em inteligência. É uma espécie de Bildlichkeit tão descarada que acredito ser possível o velho professor da Universidade de Freiburg-im-Breisgau levantar de seu inquieto jazer (após as declarações de “Meddeia”) para me explicar, pessoalmente, como é possível tamanho despautério. Se o velho monstro do Frankenstein poético — o Concretismo — procurava nos convencer ser possível versificar da mesma maneira que se empilhavam tijolos na construção civil, “Meddeia” tem um mérito que supera os alcançados pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e seu capanga Délcio Pignatari; sozinha, “ela” consegue ser mais idiota que os três juntos e ao mesmo tempo.
Todavia, o buraco de “Meddeia” é mais em baixo… “Ela”, em seu “artigo”, mostrou-se-nos incapaz de ler um texto um pouco mais elaborado e dele tirar a mais simples compreensão possível; foi, também, incapaz de notar a diferença de uma crítica direta e sincera para um elogio também sincero e diretíssimo. De igual forma não teve a menor capacidade de diferenciar uma afirmação de uma negação e acabou por inverter os papéis de tudo, incluindo os “dela” própria, deixando claro a todos que não compreende o que lê e não consegue escrever o que pensa. Tudo isso me leva a crer que “Meddeia” não tem o menor conhecimento a respeito de nada do qual falou, e apenas meteu o bico onde não era chamada, como não possui uma capacidade básica, entre tantas outras que “lhe” faltam: o prazer em admirar o que se conhece.
O que ainda consegue ser pior do que tudo isso, e, verdadeiramente, é o motivo de minha tão grande preocupação, é o fato de “Meddeia” ser um estudante de Letras (e não uma “Doutora” ou uma “Mestra”…) e, por isso mesmo, esta senhorita “Meddeia”, ou melhor, um medíocre estudante do curso de Licenciatura em Letras com Inglês com pretensões de ser “a medida de todas as coisas”, achou-se no direito de participar de uma discussão intelectual pelo simples fato de possuir uma condição de universitário. No entanto, a única coisa que “Meddeia” conseguiu com seu “artigo” foi provar que ele, como a grande maioria de meus colegas, é possuidor de um cérebro obtuso. Também provou a todos os que leram o seu “artigo” que diploma universitário não traz inteligência — e se isso lhe falta, saiba que Jessé, Darlan, eu, o Prof. Jerônimo e muitos outros já a possuíamos bem antes de pisarmos na Terra Santa que é a Uefs.
Para pôr fim a toda essa exumação, faço ao leitor uma pergunta: se a um galináceo, não se mostrando capaz em sua capacidade natural de diferenciar um grão de milho de um grão de areia, chamamo-lo de “burro”, do que chamar a um ser humano que se nos mostra incapaz de utilizar com destreza, ou mera dignidade, seu raciocínio e sua linguagem?!… Deus continue a nos proteger de nós mesmos; Deus nos proteja também dos “universitários”… Deus nos proteja de “Meddeia”. Amém!
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(*) “Um burro na cátedra quer se passar por mestre”.
Silvério Duque é poeta, músico, professor de Literatura, estudante do curso de Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e autor do opúsculo O crânio dos peixes (MAC, 2002).
Publicado no Jornal Noite Dia, Feira de Santana (BA), 31-1 a 6-2-2003.
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