Fortuna crítica

Um homem célebre ou
Dois coelhinhos e uma cajadada ou
Quando as musas são abduzidas

JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO

 

“(…) mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração.

Ideou então o canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração não pôde sair.

Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola,

abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico,

encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada”

 

Cantiga de esponsais, de Machado de Assis

 

 

 

 

Poucas coisas no mundo são tão sadias quanto entrar numa pendenga intelectual com Darlan Zurc. Rememorando aqui o saudoso Bob Fields [— apelido dado ao economista Roberto Campos por Carlos Lacerda —], o peso da sua resposta à minha diatribe “dignifica o alvo”. Era o que realmente precisava nesse momento, por isso só lhe tenho a agradecer e, por extensão, agradeço ao camarada Rúbio por essa gentileza. Isso não é uma ironia.

Antes de qualquer coisa, é a primeira vez em que posso dar a dois artigos uma resposta só, como se houvesse apenas um. Algo como o doppelgänger da lenda germânica, ou seja, tanto o artigo do Zurc, a vítima neo-contista, como o de Rúbio, seu guarda-costas intelectual, partem de pontos afins. Com a diferença que Darlan pareceu-me fingir que não entendeu e o Rúbio, caindo na armadilha zurquiana, não entendeu mesmo. Não é à toa que ambos me atribuem o gosto pela obra de José de Alencar ou por algo semelhante, e o Zurc o faz para dar ao seu texto um efeito cômico, mas pagando o preço de acreditar na veracidade da própria piada.

Não sou nenhum fã de José de Alencar. Digo isso menos por motivos estéticos que temperamentais, muito embora ele tenha falhas estéticas, sendo que muitas delas decorrentes de sua ambição desmedida de abarcar um país inteiro em suas obras e assim fundar algo como uma mito-simbologia nacional. Em momentos assim, é muito comum que a forma seja rompida por um turbilhão de idéias. Também, ao contrário do que pensa a dupla, não julgo a narrativa alencariana a única possível. Por outro lado, subestimá-lo, fazer-lhe pouco caso é falta de bom senso, o que fica patente quando se sabe haver nas suas obras descrições de paisagens ou de ações causadoras de grande impacto e que resistem à corrosão do tempo. Logo, se o Zurc é ontologicamente impedido até mesmo de conceber os “caroços de abacates” alencarianos, imagine-o a realizar algo à altura das passagens bem sucedidas, as quais, por sinal, não são poucas e que só podem ser realizadas pelos eleitos.

Para começar, o conto de Darlan ser bom ou ruim não vem ao caso. Se seu conto fosse ruim a discussão teria sido de outra ordem e, ademais, haveria uma certa esperança, pois algumas orientações e alguns exercícios disciplinares o colocariam no eixo. As mencionadas adjetivações são inaplicáveis por não se tratar de um conto e muito menos de literatura. É na melhor das hipóteses uma imitação de um conto e as musas não precisam ser incomodadas para esse tipo de tarefa.

No que diz respeito à auto-referência, teria sido melhor que me aprofundasse para não permitir criar um mal-entendido e também de se fazer crer que ao falar de imaginação me opusesse à chamada literatura de idéias. Falando em mal-entendido, muito flanco foi aberto pelo fato de meu texto ser originalmente uma carta pessoal e como tal apresenta uma linguagem cujo entendimento se limita ao correspondente e ao correspondido, de modo que fosse ele dirigido ao público procuraria ser mais didático e a menção ao povoado de Melancia seria evitada. Não vai nisso uma censura, é apenas a constatação do quanto Zurc pretende que eu me divulgue.

Não sou opositor das narrativas de idéias. Sou, inclusive, apreciador de alguns dos autores citados, principalmente o Dostoievski, cuja autobiografia parece percorrer os seus clássicos; o mesmo se diga a respeito de Kafka. Mas a diferença é que existe vida e movimento de alma subjacente ao trabalho desses autores; eles conseguiram ficcionalizar e com muita eficiência a própria voz; nas suas obras a transfiguração do “eu” é patente. Ao passo que Darlan, não conseguindo o efeito dessa ficcionalização, utilizou-se do recurso ao disfarce, algo equivalente a Grande Otello que para fazer o papel de Julieta usou um vestido e uma peruca. Logo, o problema não está no fato de eu conhecer a vida pessoal zurquiana, senão eu teria dito o mesmo a respeito do Dostoievski e do Kafka cujas biografias são conhecidíssimas, mas o erro consistiu em pôr no texto para dar um caráter ficcional o kit óculos-nariz-bigode de Groucho Marx e sair por aí. Devo dizer que nisso o nosso amigo tem a companhia ilustre de Nietzsche cujo Zaratustra é um espetáculo de travestismo literário, ainda que impressionante; o mesmo se diga de sua “poesia” que é um mero apologismo escandido e metrificado. Ser Machado de Assis não é para qualquer um.

Inclusive, aproveito a oportunidade para dizer que a Musa de Dostoievski dormiu no último parágrafo de seu Crime e castigo, pois julgando não ter encontrado um final estilisticamente satisfatório para a personagem do Raskolnikoff, resolveu “improvisar” um final sintético in absurdum fazendo com que este parágrafo seja de natureza muito diversa daquilo que se espera de uma literatura: a voz ficcional deu espaço para a voz pessoal. Se o atormentado autor russo cometeu esse vacilo com sua obra prima, Oscar Wilde no 11.º capítulo do Retrato de Dorian Gray e Eça de Queiroz, no 3.º do seu impagável A relíquia, na ânsia de exibirem à exaustão suas convicções, nada mais conseguiram que arrebentar o fluxo narrativo, a resultar assim em obras adoráveis porém defeituosas.

Se esses autores vacilaram respectivamente em um parágrafo e em um capítulo, o Zurc conseguiu a façanha de consubstanciar o defeito dos três. Inclusive, a personagem do Fred ler um livro de Comte só faz ressaltar o aspecto franksteico de seu pretenso conto. Se a intenção era “dar comicidade à história”, tudo que conseguiu não foi com que ríssemos por causa do pretenso humor nesse trecho da narrativa, mas do desastrado uso que faz do truque. Com isso o efeito escapou irremediavelmente à sua intenção e acabou como o bruxo que ao atirar um raio contra o espelho atingiu a si mesmo.

O autor ainda disse que por causa de meus vacilos reintegrei-o ao campo literário por ter denominado o que escreve de crônica. O fato de eu supostamente ter cometido esse erro não me fez jogá-lo desavisadamente na literatura, pois a crônica tem várias acepções que não a literária. Se formos consultar o dicionário Sacconi veremos: “1. Narração histórica e fiel dos acontecimentos na ordem em que eles se deram, sem nenhuma apreciação crítica. 2. Comentário jornalístico de um fato da atualidade. 3. Pequeno conto de enredo indeterminado. 4. Seção de revista e jornal consagrada a um assunto especializado. 5. Biografia, geralmente desairosa, de uma pessoa”. Quando fiz a denominação estava a pensar na segunda definição e em parte na quarta, mas jamais na terceira. Agora se o autor pensou nas famosas crônicas dos viajantes tipo Caminha ou Gabriel Soares e afins, o erro permanece, pois o que eles escreveram são tão literatura quanto o eram os tratados de física e de química ou qualquer coisa escrita, posto o sentido etimológico que o termo guarda.

No que diz respeito ao conto mais recente, “Uma realidade paralela”, o qual, como o próprio autor indica, é baseado no roteiro do bom Sexto sentido e do desastrado Corpo fechado, ambos de Shyamalan, e seguindo o melhor estilo “O-nome-dela-é-Valdemar”, incorre no mesmo problema do anterior: a falta de equilíbrio entre a voz pessoal e a voz ficcional, além de ter tornado mais banal ainda a discussão do sujeito ser mal visto ou ser visto como louco por gostar de ler. Esse ponto da narrativa, que é o inicial, não vai além daquilo que já foi abordado várias vezes em comédias adolescentes norte-americanas, as quais associam a imagem de um estudioso com a de um otário ou a de um louco, tal é o caso do famoso Nerds, um filme de grande sucesso dos anos oitenta.

O autor ainda justificou a escolha da literatura baseado no fato de que esta, assim como a filosofia, é uma forma de expressão que sobrevive à corrosão do tempo. Por mais impressionante que a literatura seja, esta não monopoliza a melhor forma de tratar de determinados assuntos, nem estes serão necessariamente abordados por ela com mais profundidade. Logo, se um sujeito for um grande escritor, como é o caso do Zurc, não encontrará limites de abordagem para falar do que quer que seja em um ensaio, numa crônica, em um artigo ou em qualquer outra forma de expressão cuja natureza não o impeça de escrever. Por outro lado, quando o Zurc pretende pensar por meio da literatura, tudo que consegue é banalizar, tornar superficial uma idéia brilhante, a qual poderia mostrar seu valor e sua força em uma forma para a qual ele realmente foi convocado.

Encerro, então, essas considerações dizendo que o Zurc é um bom contador de histórias e quem quer tenha o dom da fala e sabe escrever pode narrar um acontecimento ou inventar um, pois a mentira existe para essa finalidade. Porém, fazer dessa narrativa uma obra literária é outra coisa. Não posso negar ser bom o Zurc interessar-se por literatura, mas ele não pode e não precisa expressar-se por meio dela, pois o tempo será generoso com o que realmente ele sabe fazer, e que a deixe para quem foi incumbida essa missão.

 

Feira de Santana (BA), fevereiro de 2004.

 

Jessé de Almeida Primo é estudante de Letras com Inglês da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia.

+ Leia mais: Fortuna crítica.
+ Leia mais: Repercussão.