Fortuna crítica

Feira também tem história!

GILBERTO DA COSTA NETO

 

O recém-lançado livro Feira de Santana e Ruy Barbosa: o pouso da águia na terra formosa e bendita” (Feira de Santana: sem editora, 2002, 188 pp.), organizado pelo professor Raimundo Gama, é um trabalho curioso e uma boa surpresa, a começar pelo belo prefácio do professor de História e crítico Darlan Zurc, que, com uma ótima linguagem e desenvoltura (para uma estréia), nos apresenta a obra de maneira coerente e fluida. Mas como nem tudo é perfeito, Zurc escorrega um pouco ao afirmar: “Feira — me desculpem os feirenses mais apaixonados — foi e é uma cidade de beleza menor, sem a exuberância que, para além do antigo caráter comercial, sobra em Ouro Preto e Cachoeira. Portanto, não se justifica a beldade indicada no ‘Hino à Feira’, de Georgina Erismann” (p. 17).

A coletânea dos discursos que compõe o livro é um grande achado, começando pela conferência feita para o Asilo de Nossa Senhora de Lourdes, de Feira de Santana, no ano de 1893, em Salvador, no Teatro de São João. Ruy Barbosa se preocupa mais em atacar os seus adversários políticos com uma virulência impressionante, fazendo desta conferência um acontecimento político. E para mostrar a sua repugnância frente à união da Igreja com o Estado, ele escreveu: “Prostituição, sim, do cristianismo, imolado em sua formosura ideal às conveniências da ambição de uma casta. Prostituição da soberania civil, abatida a instrumento da mais fatal das hipocrisias, a hipocrisia religiosa, do mais perigoso dos fanatismos, o fanatismo beato. Restituamos à vontade cristã sua sublimidade e ao Estado sua independência” (p. 36).

Ruy esqueceu, e parece que de propósito, que ali se tratava de um acontecimento para angariar fundos para um asilo de crianças órfãs.

Já em 1919, em visita à Feira de Santana, Ruy Barbosa, agora sim, numa campanha política, de novo desfere ataques políticos para todos os lados e dedica à cidade não mais que uma página e meia de sua imensa conferência.

A grata surpresa fica por conta dos discursos do menino Bernardino Madureira de Pinho, proferidos também em Salvador, no mesmo Teatro de São João. Bernardino, este sim, fez referência à verdadeira natureza do evento. Por outro lado, os demais discursos proferidos em Feira em 1919, homenageando o próprio Ruy Barbosa, destacando-se as saudações de Amélia Simões e Maria Rosalina Pitombo, são menos vociferantes e mostram a importância que foi dada à sua visita pelas figuras proeminentes da sociedade feirense.

O leitor mais atento irá notar que Ruy Barbosa, em sua ânsia de fazer política, relega a um plano menor tanto o evento de 1893, criado para ajudar o Asilo, quanto a festa preparada para sua visita à Feira de Santana, em 1919.

Um dos grandes momentos do livro são as reproduções de fotos da Feira de Santana do início do século XX, pertencentes ao álbum que Ruy Barbosa ganhou durante essa sua visita à cidade. O álbum traz imagens de construções que, infelizmente, não existem mais graças à ação predatória do comércio ao longo dos anos.

O leitor observador, com um pouco de boa vontade, achará alguns cantos e recantos que ainda existem e resistem na cidade e, com uma candura e uma fineza de um olhar somado a sentimentos depreendidos, sentirá os doces odores das doces noites de verão da avenida Getúlio Vargas.

O professor Raimundo Gama oferece mais esta obra sobre Feira de Santana, além de outra coordenada por ele, cujo título é Memória fotográfica de Feira de Santana (1994). E Gama, apesar de não ser historiador e sim professor de Filosofia e jornalista, parece preocupado em resgatar a memória histórica da cidade, coisa rara entre nossos pesquisadores acadêmicos.

Talvez haja algum preconceito no que se refere à história de Feira de Santana pelo pequeno número de obras sobre a cidade.

De qualquer forma, além de sua já conhecida pujança comercial, Feira teve uma grande importância cultural e histórica, mas teimam ainda os nossos historiadores (isso já está mudando, graças a Deus) por se debruçarem em estudos apenas sobre Salvador e Cachoeira. Parece que já passou o tempo em que Salvador era o centro do estado, quando só ir para a capital era que significava estar na Bahia.

 

Gilberto da Costa Neto é graduado em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia, pesquisador e autodidata em estudos sobre a Filosofia dos pré-socráticos e de Friedrich Nietzsche. E-mail: gilbertocneto@ig.com.br

 

Publicado no jornal Tribuna Feirense, Feira de Santana (BA), 6-9-2003.

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