Fortuna crítica

Miserere nobis (*)

JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO

 

Um acontecimento especial trouxe-me a esta página. Esse acontecimento chama-se “O mestre está nu”, um engenhoso artigo, publicado nesta Folha do Estado da Bahia (2 de nov.), do graduando de História (Uefs) Darlan Zurc, por sinal, um escritor a toda prova.

Por que considero esse artigo um momento especial? Seria uma estratégia de marketing? Bem, deixemos de suspense barato e vamos ao que interessa, que o dever nos chama! Trata-se, em primeiro lugar, de um artigo sobre o Professor Emérito José Jerônimo de Morais. Em segundo, no referido artigo, o nosso articulista, ao contrário do que se esperava, nas suas próprias palavras, desce-lhe o “sarrafo”.

Darlan utiliza como ponto de partida o artigo que o Prof. Jerônimo escreveu para o primeiro número do Linguajar (janeiro e fevereiro/2002) e cuja qualidade ele questiona. Não há discordar dessa crítica, uma vez que não se esperava do nosso mestre um texto tão pífio e, além do mais, parto do princípio de que um texto deve ter uma das duas qualidades extremas: ou deve ser muito bom ou deve ser muito ruim.

O artigo do professor é, porém, um pretexto para uma discussão ainda maior, ou seja, é uma análise elucidativa de toda uma trajetória de vida, não propriamente do Sr. Jerônimo, mas do tipo de admiração que há décadas o persegue. Aliás, o próprio, num evento em sua homenagem, revelou aos ouvintes o estado de apreensão em que ficavam os amigos e colegas toda vez que era convidado a participar das inúmeras palestras ou de qualquer acontecimento ligado ou não ao seu nome. Essa apreensão introduz uma das discussões mais agudas do texto darlaniano, a questão da imagem, da qual meu colega parte para analisar o fato de que o professor — e, muito menos, seus familiares — não tem autoridade sobre ela, o que é, afinal, a sina de todo homem público, e do homem comum também, bastando que este tenha um vizinho. Se o nosso mestre não é dono da própria imagem, nada o impede de ser dono do seu próprio juízo, de modo que nada o impede de agir com retidão e independência de espírito nos eventos para os quais é convidado, da mesma maneira que, infelizmente, nada impede que essa retidão sirva e dê aval aos piores propósitos, pois, os limites da malícia ainda são desconhecidos.

A agudez com que o nosso articulista analisou a figura pública do nosso mestre esvaiu-se na brevíssima análise que fez do livro Parlendas, cuja seção poética pode ser tudo, menos ruim ou, literariamente, mal resolvida. Confesso que eu mesmo, a princípio, não me senti atraído pelos poemas. Achava-os esquisitos e, valendo-me de um termo do Manuel Bandeira sobre Oswald de Andrade, pareciam-me versos de um prosador em férias. Acontece que sou do tipo que tenta outra vez. Daí resultou meu encanto ao ler “Ave, Maria” e “Dom”, que são grandes exemplos de poemas religiosos, de qualidade insuspeita, a qual se estende aos de cunho rigorosamente filosóficos, tipo “O homem e a árvore” assim como os engenhosos “Anfractais” e “Judy & Sharon”. Tivesse nosso articulista feito o mesmo, quem sabe não voltaria atrás? O que mais me impressiona é que Darlan, automaticamente, tenha atribuído os defeitos que julgou ter visto nos poemas à prosa, que é a parte mais fluida, mais leve, mais bem resolvida do livro, o que põe por terra a pretensão de utilizá-la como argumento de que o Sr. Jerônimo é escritor de qualidade duvidosa.

Estou aqui a demonstrar, apesar das observações acima, o apreço que tenho pelo artigo do meu colega. Afinal, é um dos melhores textos com que me deparei desde que entrei nesta instituição: muito bem pensado, corajoso, muito bem escrito, uma grande demonstração de inteligência. Inclusive, não me resta dúvida de que ele tenha chegado a essa mesma conclusão e ficou de tal modo encantado com sua capacidade intelectual e com o resultado do que escreveu que julgou a observação a Parlendas um mero detalhe. Que o artigo é o sinal de saúde de que a Uefs precisa é a mais pura verdade, mas há uma lição que tanto ele como este que vos escreve precisam aprender: se há algo mais perigoso do que ser seduzido ou deixar-se seduzir por outrem é o deixar-se seduzir por si mesmo. Que Deus nos proteja de nós. Amém.

 

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(*) “Tenha piedade de nós”.

 

Jessé de Almeida Primo é estudante de Letras com Inglês da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia.

 

Publicado no jornal Folha do Estado da Bahia, Feira de Santana (BA), 21-11-2002.

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