Fortuna crítica
De Latiniparla para Darlanus, amicus carnavalis (1)
JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO
Posso até acreditar que encerres a fase pro domo sua (2) com o teu mais recente artigo (“Má sorte se eu fosse puta ou: Pedido para que meus poucos desafetos me esqueçam” [3]) mas, com certeza, não conseguirás ser esquecido pelos teus desafetos. Terás que engoli-los, pois os criaste: toma, que o filho é teu!
Ninguém muda impunemente, amicus festorum (4), principalmente quando esse alguém se torna o que sempre foi. A faceta que tanto intrigou quem te conheceu nesta instituição estava de férias. Enquanto isso, capitalizaste teu lado circunspecto, sério, fingidamente carrancudo, estudioso do tipo CDF; tornaste-te uma espécie de consultor intelectual da Uefs; divertiste-te muito com as antipatias angariadas gratuitamente no teu período franciano; armaste um verdadeiro barraco mental, deixaste teus colegas em alvoroço e teus professores perplexos — e tu achando tudo isso ótimo e eu também, é claro — e agora, que consegues a proeza de ler o Tratactus logico-philosophicus ao mesmo tempo em que corres atrás do trio-elétrico-só-não-vai-quem-já-morreu, ainda reclamas da dificuldade de ser feliz!? Ou tu estás tirando onda ou teus desafetos chamam-se Darlan.
Quanto aos Contos proibidos (com toda razão de sê-lo) do Marquês de Sade, dirigido por Philip Kaufman, posso dizer que a minha esquisita ignorância é uma virtude, pois me permitiu julgar o filme como realmente é: uma das piores realizações cinematográficas, um filme repleto de chavões ditos libertários e recheado dos diálogos mais pueris (salvando-se apenas algumas falas do padre). Pelo visto, qualquer bobagem filmada, quando travestida de transgressão, garante bons dividendos às salas de exibição, pois os espectadores gostam de se sentir tão revolucionários quanto a revolução e tão libertinos quanto a libertinagem. Nada contra o fato de se fazer uma biografia cinematográfica a respeito (como já dissera Merquior) de um narrador com “asas de chumbo”, no caso, o Marquês de Sade que, segundo Paulo Francis, não serve nem para pornografia. O problema está em fazer uma obra sadiana quando deveria ser feita uma obra sobre Sade ou seja, um filme em que ele fosse um assunto, um ponto de partida para uma discussão maior, tal como o fez Milos Forman com sua obra prima O povo contra Larry Flint. Se o naturalismo artístico tende a estragar uma obra de arte, por ser muitas vezes destituído de estetização, imaginem quando esse naturalismo reproduz justamente a pequenez do universo mental de um debilóide promovido a escritor e depois a filósofo.
Amicus cervejarum (5), esse filme não é imperdível, mas, quando muito, detectável. Agradece aos teus fiéis desafetos, pois estes apenas atendem a tua vontade.
Feira de Santana (BA), outubro de 2001.
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(1) “De um falador de latim para Darlan, amigo do carnaval”.
(2) “Em causa própria”.
(3) Nota de Darlan Zurc (out. 2002): Esse artigo foi completamente modificado e rebatizado para “Alguns livros de uma só mão”. A parte que Jessé Primo contra-argumenta não existe mais na versão que é a última.
(4) “Amigo das festas”.
(5) “Amigo das cervejas”.
Jessé de Almeida Primo é estudante de Letras com Inglês da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Bahia.
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